sexta-feira, 28 de abril de 2017

Dois pesos e duas medidas

Há algum tempo penso em escrever sobre números, balanças, convenções populares, padrão Instagram de beleza, nutricionistas graduados no Instituto Federal Gabriela Pugliesi e essas coisas todas. Acho um retrocesso falar em 2017 sobre algumas coisas tão anos 70 e registrar algo que me soa tão óbvio mas, às vezes, "desenhar" é preciso.

"Fulana, como você emagreceu". Acredite: isto nem sempre é um elogio. "Nossa, que gorda! Você está grávida?". Bem, isto só mesmo um espírito de porco diria, mas como falei no início, estou hoje aqui para desenhar, então: NÃO FALE ISTO. Nunca. Em hipótese alguma. Se estar magra não é elogio, estar gorda, tampouco. E se a pessoa estiver grávida, ela lhe conta sem você perguntar. Ou não, mas aí quem decide é ela. Entenda que o corpo humano é - apenas e somente - uma carcacinha emprestada para que possamos vir dar um rolê por este mundinho doido sem parecermos The Walking Dead. Não somos o que pesamos. Não somos o que vestimos. Não somos definidos por número na balança, por cor de pele, por textura de cabelo, altura. Isto é tudo tão pequenininho, entende?

Dentro dessa carcaça que você julga estar errada - porque a sociedade lhe convenceu disso ou sabe Deus porque - vive um ser humano passando, possivelmente, por uma fase terrível. Estar tão magro ou tão gordo pode significar tanta coisa. Depressão, pressão para se adaptar aos padrões, distúrbio alimentar ou pode ser só a carcacinha daquela pessoa que é assim mesmo e você não tem absolutamente nada a ver com isso. Nada. Nadinha mesmo, vai por mim. Quando puder e quando for solicitado para isto, elogie as pessoas, as coloque pra cima. Se não for ajudar, ao menos não atrapalhe. Fique quietinho.

Mas, como todo mundo pode falar - e pra isso não tem remédio -, concluo que a humanidade está mesmo muito doente quando alguém lhe sugere que seu marido vai procurar outra mulher caso você não "se cuide". Então, querida, emagrece logo pra não perder esse boy maravilhoso! Enfia o dedo nessa garganta, corre daqui até o Piauí, come só ovo cozido, bebe suco verde-bosta, tranca a respiração numa calça 38, faz qualquer coisa, mas não perde este homem sen-sa-cio-nal que está quase te trocando por um manequim 36.
Ou, quando em público alguém te expõe, fala do seu peso, te sugere uma dieta, um nutricionista maluco, o Instagram da Pugliese, um obstetra de confiança - porque afinal você só pode estar grávida.
E a coisa pode piorar quando ninguém calcula que você não possa engravidar.

É muito triste quando você constata que não serve de nada falar idiomas, ter viajado o mundo, comprado um carro muito jovem, ter casa, cachorro, família, conquistado um cargo alto, entender de Catra a Bach, de Kefera à teoria de tudo. Você tem mais credibilidade se for magro, ainda que seja um asno. Você não é levado a sério se for gordo, porque o gordo sempre precisa se amar mais, se cuidar, fazer um exercício, uma dieta, uma coisa, sei lá. Parece que o gordo vive desleixado, como se magreza fosse luxo.

Então, pelo amor de Deus, entenda de uma vez por todas que magreza não é sinônimo de felicidade, saúde e sucesso. Gordura não é sinônimo de fracasso, tristeza e doença. Você não conhece os sentimentos íntimos do outro, não está na pele dele, não vive a vida dele. Logo, cuide de você. Deixe a função de cuidar do outro, para o outro. Pense nas pessoas com amor, com respeito, com carinho. Admire quem ele é por dentro, o que ele faz pelo próximo, suas atitudes e de que maneira ele te ajuda a ser uma pessoa melhor. Deixa a corpo dele em paz. Daqui a pouco ele devolve a carcaça - e você também. E aí voltaremos todos a ser um amontoado de ossinhos. Uns exatamente iguais aos outros. Juro. Iguaizinhos. Mesmo peso, mesma medida.